Retornando o Abismo dos Monstros
com uma criatura mais que conhecida: fantasma.
Mas inicio avisando que
utilizarei de exemplos criaturas vistas em diversas mídias que nem sempre são
fantasmas, mas que possuem poderes ou abordagens tão similares que os
considerarei. Pensem no demônio que possui em O Exorcista... Não seria perfeitamente um fantasma?
Por fim, outra observação de quem
o assunto fantasma poderia ser imensamente expandindo, pensando nos poderes
(poltergeist, possessão, etc.) e tantas coisas. Porém, vou me ater a questão de
criação do background para utilizar um fantasma como meio de colocar um monstro
mais desenvolvido como adversário aos PCs.
Histórico e Motivação
Para mim o ponto mais importante
ao se utilizar um fantasma como antagonista dos Personagens dos Jogadores é seu
histórico. Se o Mestre está procurando uma criatura para ter combates heroicos
contra os PJs, não use fantasma. Mas se quer integrar um monstro com a
aventura, envolver sua história, exigir que os jogadores investiguem e
descubram mais sobre o mal que se opõe a eles... Bem Mestre, use fantasmas que
estará fazendo isso certo.
Então se resolver usar um
fantasma (ou mais, vai saber o nível de pavor que quer implementar), sempre
crie um histórico para ele.
Comece pensando na motivação que
possuía em vida. O que considerava importante na sua vida, o que fazia ou
possuía que considerava parte de si. Pensando nisso ficará mais fácil pensar
nos motivos que levaram à sua morte, quase sempre ligados às motivações
pessoais do indivíduo. Então se era um executivo que se dedicava muito ao seu
trabalho, tinha inimigos poderosos e foi assassinado, em uma trama que pode
levar ao estilo espionagem. Se o homem valorizava a família, pode agora
assombrar a mansão que permanece na família há gerações.
Porém, nada o impede de pensar em
um acidente trágico, que pode interromper as motivações da pessoa em questão.
Então um indivíduo era um ator que faria a grande estreia no maior teatro da
cidade, como protagonista da peça, mas um incêndio repentino um dia antes da
estreia matou-o e agora ele assombra o que restou do teatro.
De qualquer maneira, algum motivo
tem de fazer com que a alma do falecido permaneça ligada a um local, objeto, ou
mesmo pessoa.
Motivação distorcida: como os fantasmas veem o mundo
A motivação que possuía em vida,
contudo, possivelmente ficará distorcida agora que o indivíduo está morto.
Se o fantasma era do citado homem
que valoriza sua família, ele a assombra pois pensa que a está protegendo
contra inimigos, ainda que estes que julga inimigos sejam todos que não pertençam
diretamente a essa família. Assim o fantasma atacaria pessoas próximas e
importantes pros seus descendentes, como esposas de seus netos, cunhados dos
filhos, etc., parecendo a estes uma criatura vil e sanguinária, que contudo,
segue uma versão difusa da motivação que possuía em vida.
Samara Morgan da série de filmes O Chamado não mata pessoas simplesmente
por matar, o que ela quer é que a fita seja divulgada e sua história se
espalhe, ou seja, que entendam seu lado da trágica história de sua família.
O que podemos pensar disso é que
a experiência de morte é tão impactante e traumática, que o indivíduo perde
noções de moral e de empatia. Assim, pode não perceber que está causando
efeitos ruins nas pessoas que entra em contato, pois ainda se vê tentando fazer
sua motivação. E quanto mais as pessoas se assustam com sua presença, tentam
atacá-lo, e tudo mais, mais confuso (e talvez nervoso, triste, angustiado e,
claro, raivoso) o fantasma fica.
Seria algo como os fantasmas do Sexto Sentido, que assustam o garoto
quando aparecem, mas posteriormente ele descobre que estão tentando entrar em
contato com ele.
Então o fantasma que valoriza a
família em sua visão está protegendo-a, mantendo-a, quando mata “intrusos”, sem
perceber que matar a esposa do filho não é lá muito bom. Imagine quando ouve
este filho esbravejando sobre como “esta maldita família só traz coisas ruins”
e como “gostaria de queimar essa maldita casa!”.
Ou imagine um homem que morreu
protegendo a namorada de um assalto, e ainda permanece na casa dos dois, pois seu
amor por ela era tanto que manteve-o preso a este mundo. Então esse fantasma vê
sua amada diariamente, e como está triste com a perda do amado, e ele decide
tentar entrar em contato com ela, dizer que está bem, etc., mas suas tentativas
de contato a assustam, apavoram, pois para ela um fantasma a esta
assombrando....
É amigo, até o filme Ghost é um bom exemplo.
Relacione histórico e permanência no mundo terreno
Após pensado no spoiler e em
motivação do indivíduo (o que considerava muito importante em sua vida), a
morte dele fará com quem o não cumprimento dessa motivação (ou desejo de
continuar com ela), mantenha sua alma no mundo terreno, ao invés de seguir seu
curso (seja qual for).
Aquele indivíduo que ia estrear
como protagonista, citado anteriormente, desejava tanto ser um ator consagrado,
que este desejo não-realizado fez sua alma permanecer no mundo, assombrando o
mesmo teatro (agora ruínas e escombros) e atacando aqueles que surgem. Na visão
deste fantasma, todos os intrusos são atores desejando roubar seu papel na peça
magnífica por vir.
Evitando spoilers, darei exemplos
que podem ser consultados, ou lembrados por quem já os viu. Supernatural tem diversos casos de
fantasmas, com os protagonistas tentando descobrir a história que levou à morte
da pessoa em questão (afim de descobrir um dos meios de derrotar a criatura,
veja mais adiante), e os motivos dela assombrar o local. Mas fantasma ligado a pessoas pode ser
conferido no Atividade Paranormal,
enquanto ligado a locais há inúmeros filmes que retratam que um assassinato
terrível em uma casa torna-a mal-assombrada. Aliás, um dos livros mais
sinistros que já li é me o precursor dos
inúmeros filmes cuja trama é uma família que se muda para uma casa que
descobre-se ser mal-assombrada: Horror
em Amityville.
Outro excelente exemplo é
novamente Samara Morgan. Ainda que não seja um fantasma propriamente dito, o
histórico dela é tanto magnífico, quanto necessário de se descobrir meios capazes
de derrotá-la. Os 7 dias que ela demora para matar são o tempo que permaneceu
no poço até morrer, e tantos outros detalhes que não vou citar.
Meios de derrotar fantasmas
Eu particularmente prefiro fazer
com que fantasmas só possam ser derrotados resolvendo uma questão pendente que
ele deixou de quando estava vivo, e que era muito importante. Se tentar
feri-los com meios mundanos, será jogado pela parede, apavorado por gritos
sobrenaturais ou mesmo ter o pesco retorcido (Reagan, é você?) ou possuído.
O melhor é que caso esteja
enfrentando o fantasma daquele ator morto pelo incêndio um dia antes da
estreia, seria preciso providenciar que o pintor colocasse o rosto desse
indivíduo (possivelmente após coletar descrições de conhecidos), no quadro
inacabado que encontraram no porão do antigo teatro. Quem sabe tentar assistir
(e depois aplaudir, como que vislumbrado) uma das não-raras (mas ainda assim
assustadoras) aparições do fantasma no que restou do palco, onde parece encenar
algo embora pareça misturar peças, falas e situações de peças e papéis
completamente diferentes.
Nada de itens mágicos ou meios
aventurescos para resolver.
Porém, há quem goste de jeitos
mais diretos de subjugar um fantasma. Sugiro que se crie uma maneira padrão de
derrotá-los, algo como fraqueza dessa espécie de criatura, e seja sempre isso,
porém difícil.
Um exemplo disto seria o que é
feito no Supernatural: queimar os
restos mortais de um fantasma sempre o levará a ter um descanso eterno. Assim,
os PJs podem sempre tentar essa opção, mas ainda teriam as dificuldades de
encontrar o túmulo do fantasma (sem contar coisas que no seriado já ocorreram,
como os ossos não serem desse indivíduo).
Pense em algo nesse sentido, com
o mínimo de elemento de ambientação, ao invés de armas mágicas serem capazes de
atingir fantasmas.
Assim, pensando em uma motivação
e como ela faz com que alguém falecido queira permanecer nesse mundo, terá um
bom histórico. Com ele envolverá os jogadores, que aprenderão sobre a criatura
com o intuito de achar um meio de derrotá-la.
Quem sabe os Personagens dos
Jogadores não vejam o lado da criatura, e até se apiedem dela?
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Matheus Jack

Mestre de RPG, cosplayer, historiador, apaixonado por filmes.
Considera-se um quase-nerd, embora o citado, e mais o blog, deixe em dúvida o quão "quase" é.
Considera-se um quase-nerd, embora o citado, e mais o blog, deixe em dúvida o quão "quase" é.
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